Etmologia || No Brasil || Sinonímia || Você Sabia? || Linguagem || História || A cachaça nasceu no Brasil?
A origem do nome CACHAÇA deve ser espanhola. Mas a palavra nunca pegou na Península Ibérica. Ela foi escrita algumas vezes como sinônimo da milenar BAGACEIRA, feitas das borras da uva, mas nunca na nossa acepção e com a nossa sede. O termo CACHAÇA chega até nós pelos portugueses, junto com os alambiques, as primeiras destilações. A primeira referência literária, livresca, que Câmara Cascudo encontrou (portanto, de que se tem notícia), está na Carta-II de Sá de Miranda (1481-1558) ao seu "amigo e comensal, Antônio Pereira, o Marramaque, senhor de Basto", quando o primeiro provou da cachaça na Quinta da Tapada, em Celorico de Basto, no Minho, de propriedade de segundo. Cantavam os versos:
Ali não mordia a graça,
Eram iguais os juízes;
Não vinha nada da praça,
Ali, da vossa cachaça!
Ali, das vossas perdizes!
Certamente não era a aguardente da cana-de-açúcar, mas a BAGACEIRA. Porém, Nicolau Lanckman, em 1451 viu a cana-de-açúcar "ao redor de Coimbra". Depois, em 1525, Gil Vicente registrou "vales para açafrão e canas açucaradas", em sítios da Beira. Na verdade, CACHAÇA, na Península, não era falado, era uma palavra quase vulgar e rara para designar a bagaceira. Por tudo que sei, não acredito em CACHAÇA DE CANA DE AÇÚCAR em Portugal. A bebida nasceu aqui, é brasileira, com matéria-prima e braços nacionais, ainda que com alambiques lusos. A palavra somente se generalizou aqui. CACHAÇA originária "do mel de açúcar sacarino", obtida do caldo ou do melaço, borras ou escumas da cana-de-açúcar, É BEBIDA BRASILEIRA. Com referência aos primeiros registros da palavra, enquanto pesquisamos, BEBAMOS!
O primeiro registro escrito, culto, da palavra CACHAÇA deve-se ao naturalista alemão Jorge Marcgrave , quando descreve a fabricação do açúcar em Pernambuco, sob o império do Conde Nassau: A primeira caldeira é chamada pelos portugueses "caldeira de mear descumos", na qual o caldo é sujeito à ação de um fogo lento, sempre movido e purgado por uma grande colher de cobre chamada "escumadeira", até que fique bem escumado e purificado. A escuma é recebida numa canoa, posta em baixo, chamada "tanque", e assim também a CACHAÇA, a qual serve de bebida para os burros". (História Naturalis Brasiliae, Amsteloami, 1640)
Outros nomes que tem a CACHAÇA ou PINGA (no abecedário, um sinônimo ou eufemismo para cada letra) : abrideira, baronesa, caninha, danada, engasga-gato, fogo, gramática, homeopatia, imaculada, já-começa, lisa, meu-consolo, nó-cego, otim-fim-fim, paraty, quebra-munheca, remédio, sinhazinha, teimosa, uca, venenosa, xarope-de-bebo, zuninga.
Quando o francês Leclerc tomou o Rio de Janeiro e pediu o resgate para libertar a cidade, exigiu: cachaça e farinha de Paraty. E foi atendido.
Antes do nome CACHAÇA firmar-se aqui definitivamente como a aguardente derivada da fermentação e destilação do caldo ou do melaço da cana-de-açúcar, convém registrar um nome que prevaleceu pelos sé culos XVI e XVII. Era também muito popular JERIBITA e suas variações: JIRIBITA, JURUBITA, GERIBITA, GIRIBITA, GERIBA, PIRIPITA. Ainda hoje, em alguns locais do Brasil, se fala uma dessas formas. Os dicionários da é poca registram todas elas como sinônimos de cachaça e de aguardente. Mas, sempre esgotando pesquisa, Câmara Cascudo alerta que muitas vezes a fala popular e os documentos literá rios e estatais (legais e de fisco) indicam que são líquidos diferentes. Ao mesmo tempo, documentos comerciais gravam eufemismos como AGUARDENTE DA TERRA, VINHO DA TERRA, VINHO DE MEL, que , na verdade, são cachaç a, para diferenciar de GERIBITA DE FORA, AGUARDENTE (solitariamente para designar BAGACEIRA), AGUARDENTE DO REINO, BAGACEIRA. A CAXAXA AZEDA ou GARAPA AZEDA, registrada no final do século XVII, é o caldo fermentado, sem destilação, que també m, em excesso, embriaga. É como a GARAPA DOIDA que encontramos n início deste século no Acre, onde não havia alambiques, somente engenhocas para moer a cana. O nome PINGA só veio depois, no Rio, são Paulo e Minas Gerais, creio que no final do Dezenove. Era a destilação, depois da fervura e evaporação do caldo fermentado, que "pingava" na bica do alambique.
A aguardente-de-cana, a
bebida mais popular do Brasil é definida pela legislação brasileira como produto
alcóolico obtido a partir da destilação do caldo de cana fermentado, devendo
apresentar teor alcóolico entre 38º e 54º GL. Sua história remonta dos primórdios
do século XVI, como sendo a primeira bebida destilada entre nós.
A partir de 1584 o trabalho escravo foi fundamental para o desenvolvimento da
indústria do açúcar, concorrendo, dentre outras coisas, para aumentar a produção
da cachaça, pois os alambiques estavam situados quase que exclusivamente nos
engenhos.
Inicialmente, a cachaça era a espuma da caldeira em que se purificava o caldo
de cana a fogo lento e servia como alimento para bestas, cabras, ovelhas. Assim,
pôr algum tempo, foi considerada um produto secundário da industria açucareira;
era mais uma garapa e não tinha nenhum teor alcóolico. Somente depois da metade
do século XVI é que a cachaça passou a ser produzida em alambique de barro,
posteriormente de cobre, sob a forma e nome de aguardente.
Com o passar do tempo a produção da cachaça foi aumentando e sua qualidade sendo
aprimorada. Nos engenhos do nordeste era costume dar cachaça aos escravos na
primeira refeição do dia, a fim de que pudessem suportar melhor o trabalho árduo
dos canaviais.
Reservada, inicialmente a escravos, a cachaça, com o aprimoramento da produção,
atraiu muitos consumidores e passou a ter importância econômica para o Brasil
colônia. Tal fato tornou-se uma ameaça aos interesses portugueses, pois a bagaceira
passou a ser consumida em menos escala, enquanto a cachaça saiu das senzalas
e se introduziu não só na mesa do senhor do engenho, como também nas casas portuguesas.
Diante desta realidade, a venda da cachaça foi proibida na Bahia em 1635 e em
1639 deu-se a primeira tentativa de impedir até o seu fabrico. Ao tempo da transmigração
da corte portuguesa em 1808 para o Rio de Janeiro, a cachaça já era considerada
como um dos principais produtos da economia brasileira. Em 1819 já se podia
dizer que a cachaça era a aguardente do país.
Tornou-se a bebida dos brasileiros que, pôr amor à pátria, recusavam o vinho,
especialmente os que vinham de Portugal, e faziam questão de brindar com cachaça.
Hoje em dia quase toda a produção da cachaça se faz em destilarias independentes
dos antigos engenhos e das atuais usinas de fabrico de açúcar. Incontáveis são
os alambiques de pequeno porte, espalhados pôr todo território.
À nível mundial, em termos de produção e consumo de bebidas destiladas, sem
dúvida a cachaça ocupa, atualmente, um dos primeiros lugares.
Advinhação – "O que é que pode mais que Deus ?
É a cachaça, porque Deus dá juizo e a cachaça tira."
Luís da Câmara Cascudo, o mais ilustre intelectual da minha família, e, segundo Jorge Amado, "o homem mais importante do Brasil neste século", faleceu em 1987, mas continua sendo o maior cachaçólogo do planeta, de todos os tempos. Nenhum outro cientista estudou mais profundamente o universo humano da pinga do que ele. Cascudo duvida que existisse cachaça, aguardente de cana-de-açúcar, na Europa ou em África, mesmo descobrindo registros importantes do nome na literatura portuguesa. Sá de Miranda (1481 – 1558) verseja na sua CARTA – II: "Ali não mordia a graça, / eram iguais os juizes; / Não vinha nada da praça, / Ali, da vossa cachaça! / Ali, das vossas perdizes!" É o primeiro registro que se tem notícia do nome cachaça. O gênio potiguar afirma que é certo que se fabricava e se bebia cachaça no Minho, durante o reinado de D. João III, mas não era o destilado da cana, e sim a aguardente obtida das borras, "das pisas de uvas no lagar". Gil Vicente publica, em 1525, "vales para açafrão e canas açucaradas", na Beira. Cascudo informa, ainda, que Nicolau Lanckmann viu cana – de – açúcar ao redor de Coimbra.
Eu também duvido disso tudo. Cachaça, que, concordo, vem do espanhol cachaza, excluídas outras versões, na Península Ibérica designava uma bagaceira inferior, ou um apelido maldito, menor, ofensivo, dado à aguardente das cascas das uvas. Era o nome chulo da aguardente, da bagaceira. O primeiro registro do termo, na Terra Brasilis, devemos ao médico holandês Guilherme Piso e ao naturalista alemão Jorge Marcgrave, na obra História Natural do Brasil, editada em Amsterdam, em 1640. Descrevendo o processo dos primeiros engenhos brasileiros, eles escreveram: "... A escuma é recebida numa canoa posta em baixo, chamada tanque, e assim também a cachaça, a qual serve de bebida para os burros". Ainda não era a bebida alcoólica que temos hoje. Essa cachaça era a que André João Antonil nos revela em 1711 no clássico Cultura e Opulência do Brasil, a primeira escuma, que caía no cocho de pau e servia para as bestas, cabras, ovelhas e porcos. Porém, muito antes, Jean de Léry , no século do descobrimento, já falava em embriagues pela "garapa azeda ou aguardente", que, na verdade, também não era o destilado, mas o caldo de cana fermentado. Garapa doida, antes de ser o sinônimo atual de cachaça no Acre, teve o mesmo significado. Irrelevante a distinção original entre cachaça, aguardente obtida da destilação das borras do mel da cana; e cana ou caninha, aquela obtida do caldo de cana. Hoje, cachaça, cana, caninha, pinga e paraty são sinônimos, independentes da matéria- prima.
A primeira referência à cachaça de verdade, destilada da cana-de-açúcar, após a fermentação, mesmo que não se escrevendo cachaça, mas seus eufemismos, foi feita por Pyrard de Laval, em 1610, na Bahia. A citação do nome cachaça com todas as letras, sem pudor ou vergonha, somente foi feita e dicionarizada já neste século.
Eu estudo o assunto desde menino – designações, significados, processos, produtos, tipologias, variações, épocas – e estou convencido de que a aguardente de cana-de-açúcar, a nossa cachaça, a nossa pinga, nasceu aqui, dos alambiques chegados com os primeiros colonos. O primeiro engenho foi construído em Santos, SP, por Martin Afonso de Souza, em 1534, o Engenho dos Erasmos, hoje em ruínas, sítio arqueológico. O nome deve-se a um suíço, Erasmus Scheltz, que, mais tarde, o adquiriu e o transformou em uma rendosa e modelar empresa. A indústria nacional nasceu aí, desse engenho que produzia pinga. Martin Afonso passou pelo Rio de Janeiro, pela Baía de Ilha Grande, que banha Angra dos Reis e Paraty. Pesquisas indicam engenhos na Ilha Grande antes de 1560. Paraty, em 1600, já exportava, para o mundo, pinga maravilhosa. No século XVI, engenhos de açúcar e aguardente pontuavam ao redor da Baía da Guanabara. Mas, se os primeiros alambiqueiros foram os açoreanos, será que, nos Açores, não se destilava cachaça? Creio que não. Nunca encontrei registro pertinente. Os alambiques do arquipélago Atlântico destilavam a bagaceira das cascas da uva e vieram para o Brasil como bens de família, instrumentos de trabalho e, certamente, de prazer.
A cachaça
não apenas teve seu nome popularizado, generalizado nesta terra. Ela nasceu
aqui. No início, bebida dos negros e dos animais. Foi restringida, perseguida,
proibida, discriminada. Resistiu, entrou na casa grande, nas bodegas, nos armazéns,
nos salões. Hoje é a preferida do povo brasileiro, a bebida mais consumida do
País, o segundo destilado mais consumido do mundo. Molhou a goela e alma da
gente, invadiu os sentidos da nacionalidade, é paixão e faz parte da história
e da realidade do povo brasileiro. Outros países produzem cachaça, como o Paraguai,
alguns países caribenhos, mas a sua pátria é o Brasil. Aqui, se fabrica a melhor
cachaça que existe, essa sublime e deliciosa expressão da cultura brasileira.
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